“Centros do Islã ao Longo da História 2”: Medina — Aqui Nasceu o Primeiro Estado Islâmico

Se Meca é o berço da Revelação e a direção para a qual os muçulmanos se voltam em oração, Medina é o lugar onde a mensagem islâmica se transformou em Estado, sociedade e civilização. Foi ali que o Islã passou de uma fase de perseguição e vulnerabilidade para a construção de uma Ummah. Ali, o Profeta Muhammad ﷺ viveu os últimos anos de sua vida; dali partiram exércitos, emissários, cartas e mensagens; ali os Companheiros se reuniram ao redor do Mensageiro de Allah ﷺ; e dali surgiu um Estado que, em pouco tempo, ultrapassaria as fronteiras do Hijaz e alcançaria horizontes muito mais amplos.

Antes do Islã, a cidade era conhecida como Yathrib. Após a Hégira, porém, seu nome passou a estar intimamente ligado ao Profeta ﷺ, tornando-se conhecida como “a Cidade do Mensageiro de Allah”, além de Taybah, Tabah e outros nomes preservados nos livros de hadith e de história islâmica.

Medina está localizada no oeste da Arábia Saudita, no coração da região do Hijaz. Fontes oficiais a descrevem como a primeira capital da história do Islã.

A Mesquita do Profeta — o coração de Medina e centro do Estado e do conhecimento desde a Hégira.

Yathrib Antes do Islã: Uma Cidade à Espera de Sua Grande Transformação

Yathrib não era uma cidade insignificante antes do Islã. Possuía uma vida agrícola estabelecida, extensos palmeirais e terras relativamente férteis em comparação com o ambiente ao redor. Também era habitada por diferentes grupos, entre eles as tribos Aws e Khazraj, além de tribos judaicas.

O longo conflito entre Aws e Khazraj havia enfraquecido profundamente a cidade, até que a mensagem islâmica abriu diante de seus habitantes um novo caminho. O contato entre o povo de Yathrib e o Profeta ﷺ começou durante as temporadas de peregrinação em Meca. Depois vieram os dois Juramentos de al-Aqabah, que prepararam o terreno político e social para a Hégira.

A Hégira, portanto, não foi simplesmente a mudança de indivíduos de uma cidade para outra. Foi uma transição histórica da fase de propagação da mensagem para a fase de construção de um Estado.

A Hégira: O Momento que Mudou a História de Medina

No ano 1 AH/622 d.C., o Profeta ﷺ chegou a Yathrib após a jornada da Hégira, que se tornaria o marco inicial do calendário islâmico. Os habitantes da cidade receberam o Profeta ﷺ e os Muhajirun, e Yathrib transformou-se no centro do nascente Estado islâmico.

A partir daquele momento, a cidade entrou em uma fase completamente nova. Os Muhajirun, que haviam deixado Meca, encontraram nos Ansar uma comunidade que os acolheu e apoiou. Formou-se então um novo vínculo, capaz de superar antigas lealdades e rivalidades tribais.

Ali surgiu uma nova concepção de pertencimento, baseada na fé, na fraternidade e em uma ordem social comum.

A Mesquita do Profeta: O Coração do Primeiro Estado Islâmico

A construção da Mesquita do Profeta foi uma das primeiras iniciativas do Profeta ﷺ após sua chegada a Medina, no ano 1 AH/622 d.C.

A mesquita não era apenas um local de oração. Ela se tornou o centro da nova vida islâmica. Ali eram realizadas as orações, recitados os versículos do Alcorão, organizados círculos de conhecimento, recebidas delegações, emitidas orientações e discutidas questões relacionadas à sociedade e ao Estado.

A mesquita também esteve ligada aos Ahl al-Suffah, grupo formado por muçulmanos pobres entre os Muhajirun e por buscadores de conhecimento.

Medina tornou-se, assim, um dos primeiros modelos de cidade islâmica, na qual a mesquita se integrava à educação, à justiça, à administração, ao culto e à vida social.

No coração da Mesquita do Profeta permanece a abençoada Rawdah, sobre a qual o Profeta ﷺ disse:

“O espaço entre minha casa e meu púlpito é um jardim dentre os jardins do Paraíso.”

A Mesquita do Profeta antes das sucessivas ampliações.

A Fraternidade e a Carta de Medina

O novo Estado enfrentava um desafio ainda maior do que a construção da mesquita: precisava formar uma sociedade capaz de resistir às ameaças que a cercavam.

A fraternidade estabelecida entre os Muhajirun e os Ansar criou um novo laço social. Em seguida, veio a Carta de Medina, que organizou as relações dentro da sociedade e definiu responsabilidades, direitos e obrigações.

Medina tornou-se, assim, a primeira experiência política islâmica organizada, onde começaram a tomar forma as primeiras instituições do Estado, em uma sociedade que reunia os Muhajirun, os Ansar e outros grupos já presentes na cidade.

Medina: Capital do Jihad e da Defesa do Estado

Medina não foi apenas uma cidade de conhecimento e adoração. Também foi a capital militar de um Estado recém-formado que enfrentava ameaças constantes.

De Medina, os muçulmanos partiram para Badr, no ano 2 AH/624 d.C.; para Uhud, no ano 3 AH/625 d.C.; e para a Batalha da Trincheira, no ano 5 AH/627 d.C.

Na Batalha da Trincheira, o perigo chegou ao próprio coração de Medina, transformando a cidade em uma linha decisiva de defesa do Estado islâmico. Depois da batalha, o equilíbrio de forças começou gradualmente a mudar, e o Estado sediado em Medina tornou-se cada vez mais capaz de afirmar sua presença na Península Arábica.

Também de Medina partiram delegações, expedições militares e cartas dirigidas a tribos e governantes. Uma pequena capital no Hijaz foi se transformando em um centro político ligado a vastas regiões da Península Arábica.

De Medina, um Estado se Projetou para o Mundo

Após a conquista de Meca, no ano 8 AH/630 d.C., o Estado islâmico deixou de estar limitado ao espaço entre Medina e Meca. Tribos árabes começaram a ingressar sucessivamente no Islã, enquanto o Estado se expandia política e religiosamente.

Quando o Profeta ﷺ faleceu, no ano 11 AH/632 d.C., Medina permaneceu como centro do Califado. Na Saqifah de Banu Sa’idah, Abu Bakr al-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, recebeu o juramento de fidelidade como califa.

De Medina partiram as campanhas das Guerras da Ridda, antes do início da grande expansão islâmica para além da Península Arábica.

Durante os califados de Abu Bakr, Umar e Uthman, que Allah esteja satisfeito com eles, Medina permaneceu como centro das decisões de um Estado cujo território se expandiu em ritmo impressionante. Nesse período, a cidade continuou sendo a capital do Califado Rashidun, de onde eram conduzidas as conquistas e administrados os assuntos do Estado.

Medina: A Escola dos Companheiros e dos Tabi‘un

Mas o maior legado deixado por Medina não foi o poder militar nem a política. Foi o conhecimento.

Na Mesquita do Profeta surgiu uma das maiores escolas de conhecimento da história do Islã. Os Companheiros receberam do Profeta ﷺ o Alcorão e a Sunnah e os transmitiram aos Tabi‘un e, depois, às gerações seguintes.

Entre as grandes figuras de Medina estavam Abu Hurayrah, Abu Sa’id al-Khudri, Zayd ibn Thabit e Aisha, que Allah esteja satisfeito com eles. Depois vieram importantes estudiosos entre os Tabi‘un, como Sa’id ibn al-Musayyib, Urwah ibn al-Zubayr e al-Qasim ibn Muhammad, seguidos por gerações de imames e sábios ligados à escola de Medina.

De Medina se desenvolveram importantes tradições dos estudos de hadith, jurisprudência e biografia profética. Mais tarde, a prática dos habitantes de Medina também se tornaria uma das grandes questões jurídicas da escola Maliki.

Medina, portanto, não foi apenas uma capital política. Foi uma universidade aberta, sem muros, procurada por estudantes de conhecimento vindos de diferentes regiões do mundo islâmico.

Medina Após a Transferência da Capital

No ano 41 AH/661 d.C., a capital do Estado Omíada foi transferida para Damasco, e Medina deixou de ser a sede do califa governante.

Isso, porém, não diminuiu sua posição religiosa e intelectual. A Mesquita do Profeta continuou sendo destino de estudiosos e peregrinos, e Medina permaneceu profundamente associada à memória do Profeta ﷺ e de seus Companheiros.

A visita à cidade também se tornou, ao longo das gerações, uma parte profundamente enraizada da viagem de muitos muçulmanos ao Hijaz.

Com o passar dos séculos, Medina passou por diversas transformações políticas e urbanísticas. Foram construídos muros e fortificações para protegê-la de ataques, enquanto a Mesquita do Profeta passou por sucessivas ampliações.

Lugares que Ainda Carregam a Memória do Islã

Hoje, Medina abriga alguns dos mais importantes marcos islâmicos e históricos: a Mesquita do Profeta, a Mesquita de Quba, a Mesquita das Duas Qiblas, o Monte Uhud e o cemitério de al-Baqi, além de muitos outros locais associados à biografia profética e às batalhas dos primeiros anos do Islã.

A Mesquita de Quba está entre os mais importantes desses marcos. Ela está intimamente ligada ao início da Hégira e é descrita pelas fontes históricas como a primeira mesquita construída no Islã.

Mesquita de Quba.

O Monte Uhud, por sua vez, permanece como testemunha de uma das batalhas mais conhecidas dos primeiros tempos do Islã, enquanto al-Baqi preserva a memória de gerações de Companheiros, membros da família do Profeta ﷺ e estudiosos de Medina.

Medina: Aqui Caminhou o Mensageiro de Allah

A cada passo, o visitante sente a grandiosidade e a reverência do lugar. Esta é a terra sobre a qual caminharam o Mensageiro de Allah ﷺ e seus Companheiros.

Esta é Medina: a cidade da Profecia e do primeiro Estado islâmico, a terra da Hégira e a escola da Sunnah.

Meca foi o lugar onde desceu a Revelação; Medina foi o lugar onde a mensagem ganhou forma concreta como sociedade, Estado e civilização.

Por isso, Medina merece ocupar o segundo lugar em nosso mapa de “Centros do Islã ao Longo da História”. Dali, o Profeta ﷺ levou sua mensagem ao mundo; dali foi administrado o Califado Rashidun; e dali o Alcorão e a Sunnah se difundiram amplamente.

Ao longo dos séculos, Medina permaneceu como um dos maiores centros da memória religiosa, histórica e intelectual dos muçulmanos.

Aslam Muhammad


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