E piedoso com minha mãe

Por Mustafa Al-Hadi

Eu costumava me perguntar sobre a razão pela qual Deus Todo-Poderoso descreveu Jesus (que a paz esteja com ele) dizendo: “E fui piedoso com minha mãe, e Ele não me fez arrogante nem miserável.” (1) O que aconteceu para que Deus transmitisse essa descrição sobre Jesus?

Após refletir, pensei: por que não recorrer ao Evangelho e observar como era a relação de Jesus com sua mãe, a virtuosa Maria, a Virgem (que a paz esteja com ambos)? Estamos acostumados, através do Alcorão, a vê-lo corrigir aquilo que foi atribuído aos profetas e às suas mensagens. Por isso, Deus descreve o Alcorão como “guardião” das escrituras anteriores:
“E revelamos a ti o Livro com a verdade, confirmando o que havia antes dele das Escrituras e como guardião sobre elas.” (2)

O termo “guardião” (muhaymin), na língua árabe, significa aquele que é confiado às escrituras anteriores — um supervisor rigoroso, juiz justo e fiel preservador de tudo o que veio antes. Por essa razão, Deus garantiu a preservação do Alcorão, pois ele carrega a responsabilidade das revelações anteriores; portanto, deve ser protegido de qualquer alteração. Como Ele diz:
“Em verdade, Nós fizemos descer a Mensagem, e certamente Nós a preservaremos.” (3)

Voltei ao Evangelho e examinei os textos sobre a relação de Jesus com sua mãe. Então compreendi o motivo pelo qual o Alcorão descreve Jesus como “piedoso com sua mãe”. Isso contrasta com a forma como o Evangelho o retrata — como alguém que não demonstra a devida consideração por ela diante das pessoas. Inclusive, o descreve respondendo de forma dura quando ela quis vê-lo e tranquilizar-se sobre ele, ou quando pediu que providenciasse vinho para os convidados. Como relata o Evangelho de João:

“Havia um casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava lá… Quando acabou o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Eles não têm vinho.’ Jesus respondeu: ‘Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não chegou a minha hora.’” (4)

Outro ponto é que o Evangelho apresenta Jesus como alguém que não procurava sua mãe nem a visitava, enquanto Maria, a santa, sentia saudade dele e o buscava. Chega a descrevê-la percorrendo as ruas para ver seu único filho, como está no Evangelho:

“Então vieram sua mãe e seus irmãos, mas não puderam aproximar-se dele por causa da multidão. E lhe avisaram: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-te.’” (5)

Ainda assim, ele não saiu para vê-los e respondeu:
“Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam.” (6)

Glória a Deus — quem na terra foi mais fiel, mais devota e mais atenta à palavra de Deus do que Maria, a Virgem? Ela é descrita no Alcorão:
“Ó Maria, sê devota ao teu Senhor, prostra-te e inclina-te com os que se inclinam.” (7)

Por sua modéstia, Maria não saía sozinha; levava consigo os filhos de José, o carpinteiro, seu parente, e percorria a cidade procurando seu filho Jesus para tranquilizar-se sobre ele. Em certo dia, encontrou-o em um casamento realizando milagres — fornecendo vinho quando havia acabado. Ficou do lado de fora e enviou alguém para chamá-lo. Insistiu várias vezes, mas Jesus continuou falando e não lhe deu atenção:

“Enquanto ele falava às multidões, sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, querendo falar com ele. Mas ele respondeu: ‘Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ E, apontando para seus discípulos, disse: ‘Eis minha mãe e meus irmãos.’” (8)

Em outra ocasião, sua mãe insistiu em vê-lo para saber se ele estava bem. Quando ela insistiu, Jesus saiu aparentemente irritado e lhe disse diante das pessoas:
“Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não chegou a minha hora.” (9)

Depois disso, estabeleceu uma afirmação conhecida e difícil de interpretar:
“Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” (10)

Glória a Deus — onde está a manutenção dos laços familiares, a compaixão e a bondade para com os pais? Não era sua mãe Maria uma crente, e das melhores mulheres de seu tempo? Onde isso se harmoniza com o ensinamento do Alcorão que ordena o bom trato aos pais, mesmo que eles chamem ao erro:

“Mas se eles se esforçarem para que associes a Mim o que não sabes, não lhes obedeças, mas acompanha-os neste mundo com bondade.” (11)

É bondade dirigir-se à própria mãe com dureza? Quando Deus ordena:
“Teu Senhor decretou que não adoreis senão a Ele e que trateis os pais com bondade…” (12)

Assim, torna-se claro o segredo da descrição do Alcorão de Jesus como “piedoso com sua mãe”, em contraste com a imagem apresentada no Evangelho. O próprio Evangelho mostra a dor de Maria ao dizer:

“Meu filho, por que fizeste isso conosco? Teu pai e eu te procurávamos aflitos.” (13)

Talvez o mais surpreendente seja que um profeta guiado pela revelação pareça ignorar que sua própria escritura proíbe desrespeitar os pais. Lemos claramente:

“Cada um deve respeitar sua mãe e seu pai… Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe será morto… Quem ferir seu pai ou sua mãe será morto.” (14)

Ainda assim, o mesmo livro o descreve como alguém que não honrava sua mãe.

De tudo isso, entendemos que o Alcorão transmite uma mensagem muito importante:
aquele que maltrata seus pais, não os honra nem lhes faz o bem, é dos tiranos neste mundo — e dos infelizes no outro.


Referências:

1- Surata Maryam (19), versículo 32.

2- Surata Al-Ma’idah (5), versículo 48. Foi relatado em fontes sunitas, por Ali ibn Abi Talib (que a paz esteja com ele), que ele disse que o Alcorão contém o conhecimento daqueles que vieram antes de nós. Este hadith foi narrado por Al-Tirmidhi (Hadith nº 2906, vol. 5, p. 172), Al-Darimi (2/526/3331), Al-Bazzar (3/71–73/836) e Al-Bayhaqi em Shu‘ab al-Iman (2/325–326/1935–1936), com base na autoridade de Al-Harith, que disse:
“Passei pela mesquita enquanto as pessoas estavam envolvidas em discussões sobre hadith. Então fui até Ali ibn Abi Talib e disse: ‘Ó Comandante dos Fiéis, não vês que as pessoas se envolveram em discussões?’ Ele disse: ‘Elas fizeram isso?’ Eu disse: ‘Sim.’ Ele disse: ‘De fato, ouvi o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) dizer: ‘Haverá tribulação.’ Eu perguntei: ‘Qual é a saída disso, ó Mensageiro de Deus?’ Ele disse: ‘O Livro de Deus: nele está a notícia daqueles que vieram antes de vós, a informação do que virá depois de vós e o julgamento entre vós. É a palavra decisiva, não é brincadeira. Os desejos não o desviam, as línguas não o confundem, os sábios nunca se cansam dele e suas maravilhas nunca cessam. Os jinn não terminaram de ouvi-lo antes de dizerem: “De fato, ouvimos um Alcorão maravilhoso que guia ao caminho reto.”’”

3- Surata Al-Hijr (15), versículo 9.

4- Evangelho de João 2:1–4.

5- Evangelho de Lucas 8:19–20. A expressão “teus irmãos” no Evangelho refere-se aos seus irmãos por parte de José, o carpinteiro, em cuja casa ele foi criado.

6- Evangelho de Lucas 8:21.

7- Surata Aal ‘Imran (3), versículo 43.

8- Evangelho de Mateus 12:46.

9- Evangelho de João 2:4. A declaração de Jesus à sua mãe, “Ainda não chegou a minha hora”, indica que ele estava ciente da razão de sua preocupação — que ela temia por sua vida. Sua resposta, conforme retratada, parece, lamentavelmente, desdenhosa ou irônica.

10- Evangelho de Lucas 2:48–51.

11- Surata Luqman (31), versículo 15.

12- Surata Al-Isra (17), versículo 23.

13- Evangelho de Lucas 2:48.

14- Livro de Levítico 19:3; 20:9, e Livro de Êxodo 21:15.


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