Basra… Centro das conquistas islâmicas e escola de jurisprudência, hadith e língua árabeApós Kufa, que foi a capital do Califado durante o governo de Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele), a série «As Grandes Cidades do Islã ao Longo da História» nos leva a outra cidade iraquiana que não teve menor importância na formação da civilização islâmica: Basra.
Uma cidade que começou como um acampamento dos muçulmanos nos arredores do Iraque e, posteriormente, transformou-se em um centro das conquistas islâmicas no Oriente, um porto comercial que conectava o mundo islâmico ao Oceano Índico e um importante polo de estudos de jurisprudência islâmica, hadith, língua árabe e literatura.
Basra… Uma cidade que nasceu das conquistas islâmicas
Basra está localizada no sul do Iraque, próxima ao Chatt al-Arab e à confluência dos rios Tigre e Eufrates. Sua localização fez dela, desde a sua fundação, um importante elo entre o Iraque, a Pérsia, o Golfo e o Oceano Índico.
Os historiadores divergem quanto ao ano exato de sua fundação. Algumas fontes mencionam 14 AH/635 d.C., outras 16 AH/637 d.C. ou 17 AH/638 d.C. Entretanto, diversos estudos modernos associam seu surgimento aos primeiros anos das conquistas islâmicas no Iraque. Inicialmente, Basra foi estabelecida como um acampamento muçulmano e uma base militar para as operações direcionadas ao Oriente.
A escolha de sua localização estava relacionada à necessidade de estabelecer uma base próxima às rotas fluviais e às terras adequadas para o pastoreio, de onde os exércitos pudessem avançar em direção às regiões sob domínio do Império Sassânida.
De acampamento militar a base das conquistas islâmicas
Utba ibn Ghazwan foi uma das principais figuras associadas à fundação de Basra. A cidade foi estabelecida em uma região conhecida pelos árabes como Al-Khuraybah, próxima a um antigo povoado persa.
Em seus primeiros anos, suas construções eram simples, feitas de junco e de materiais disponíveis na região. Ali foram construídos uma mesquita e o edifício administrativo do governo. Aos poucos, a cidade começou a se expandir com a fixação das tribos árabes em seu território.
As fontes históricas indicam que Abu Musa al-Ash’ari, que governou Basra, contribuiu para organizar seus bairros e distribuir as tribos pela cidade.
Com a conclusão das conquistas no Iraque, Basra deixou de ser apenas uma guarnição militar e transformou-se em uma das principais bases das operações islâmicas em direção à Pérsia, ao Coração e a Sistão.
Dela partiram exércitos que contribuíram para a expansão islâmica em direção ao Oriente. A cidade também se tornou um importante centro administrativo de vastas regiões do Irã durante diferentes períodos das eras dos califas bem guiados e dos omíadas.
Basra… A porta de entrada do comércio entre o Oriente e o Ocidente
A importância de Basra não se limitava ao aspecto militar. Sua localização próxima ao Golfo Pérsico fez com que estivesse integrada a uma ampla rede comercial que conectava o Iraque à Pérsia, à Índia e às regiões do Oceano Índico.
A cidade de Al-Ubulla, localizada nas proximidades, era um importante porto comercial. Posteriormente, a própria Basra tornou-se um centro de intensa atividade mercantil, atraindo comerciantes de diversas regiões.
Estudos históricos indicam que, em seus primeiros períodos, a população de Basra não era composta exclusivamente por árabes. A cidade também abrigava grupos de diferentes origens, entre eles persas e pessoas que chegavam por meio das rotas comerciais do Oceano Índico. Essa diversidade conferiu à cidade um caráter social e cultural bastante plural.
Al-Hasan al-Basri… A voz da ascese e do conhecimento
Entretanto, aquilo que tornou Basra mais célebre não foi seu comércio nem seus exércitos, mas sim o conhecimento.
Entre suas figuras mais importantes estava Al-Hasan al-Basri, um dos grandes tabi’un — a geração que conheceu os Companheiros do Profeta ﷺ. Ele viveu a maior parte de sua vida em Basra e faleceu em 110 AH/728 d.C.
Sua presença intelectual não estava dissociada da vida pública. Ele viveu em períodos de grande instabilidade política, testemunhou as transformações do Estado Omíada e manteve uma voz ativa nos debates sobre ascese, poder, ética e responsabilidade religiosa.
Aqui nasceu a gramática da língua árabe
Se Al-Hasan al-Basri deixou sua marca nos estudos do hadith, na pregação religiosa e na jurisprudência islâmica, Basra também entraria para a história por outra contribuição de enorme importância: a língua árabe.
Foi nessa cidade que surgiu uma das mais antigas escolas de gramática árabe, em um contexto marcado pela necessidade de preservar a correção da língua após a expansão do Estado Islâmico e o contato dos árabes com outros povos.
Os primeiros passos dessa tradição estão associados ao nome de Abu al-Aswad al-Du’ali. Posteriormente, várias gerações de estudiosos da língua e da gramática deram continuidade a esse trabalho, até que a escola gramatical de Basra atingiu seu auge com Al-Khalil ibn Ahmad al-Farahidi.
Al-Khalil foi um dos maiores estudiosos da língua árabe. Seu nome está associado ao desenvolvimento da lexicografia e da ciência da métrica poética árabe. Ele também foi professor de Sibawayh.
Assim, Basra deixou de ser apenas uma cidade onde as pessoas aprendiam a língua árabe e passou a ser um lugar cujos estudiosos contribuíram para a própria construção da ciência da língua árabe.
Basra e Kufa… Uma rivalidade que impulsionou as ciências da língua
Na outra margem estava Kufa. Entre as duas cidades surgiu uma famosa rivalidade intelectual, especialmente nos estudos da gramática e da língua árabe.
Basra desenvolveu uma metodologia baseada na observação sistemática, na analogia gramatical e na investigação da linguagem utilizada pelos árabes considerados eloquentes. Já os estudiosos de Kufa desenvolveram suas próprias escolhas e metodologias no tratamento das narrações e dos exemplos linguísticos.
Essa rivalidade não foi apenas uma divergência entre estudiosos. Ela contribuiu para enriquecer a língua árabe e ampliar as pesquisas sobre suas regras e evidências linguísticas.
Al-Jahiz… Quando Basra se tornou uma escola de literatura e pensamento
De Basra surgiu um dos escritores mais célebres da civilização islâmica: Abu Uthman Amr ibn Bahr, conhecido como Al-Jahiz, falecido em 255 AH/868 d.C.
Al-Jahiz não era um gramático no sentido tradicional, mas sim um escritor e pensador de vasto conhecimento. Ele deixou obras que se tornaram clássicos da herança literária árabe, como Al-Bayan wa al-Tabyin e Al-Hayawan.
Em seus livros, Basra aparece como um ambiente intelectual vibrante: uma cidade de debates, língua, literatura e pensamento, onde as ciências religiosas se encontravam com os conhecimentos naturais, sociais e literários.
Assim, consolidou-se a imagem de Basra como um dos mais importantes centros de desenvolvimento do pensamento islâmico e árabe nos primeiros séculos da história islâmica.
Basra e os estudos do hadith, das leituras corânicas e da jurisprudência islâmica
Além da língua e da literatura, Basra também foi um importante centro de estudos do hadith, da jurisprudência islâmica e das leituras corânicas.
Um grande número de Companheiros do Profeta e tabi’un viveu na cidade, onde se sucederam círculos de transmissão de conhecimento e ensino.
Dessa forma, Basra tornou-se um ponto de encontro de diversas ciências: jurisprudência islâmica, hadith, interpretação do Alcorão, leituras corânicas, língua árabe, gramática e literatura.
A cidade que conheceu a política e os conflitos
Assim como aconteceu em Kufa, Basra não permaneceu distante da política. A cidade testemunhou a Batalha do Camelo, no ano 36 AH/656 d.C., um dos acontecimentos mais graves da Primeira Fitna, o período de conflitos internos que marcou a história inicial do Islã.
Posteriormente, Basra também foi palco de diferentes turbulências e movimentos políticos. Apesar disso, a cidade conseguiu recuperar seu papel científico e comercial.
Durante a era abássida, sua importância econômica e cultural continuou, embora Bagdá tenha começado gradualmente a atrair para si o principal centro de poder político e intelectual.
O declínio da cidade… e a permanência de seu nome na história
Com o passar dos séculos, Basra enfrentou instabilidades políticas, guerras, mudanças nas rotas comerciais e alterações nos cursos das águas. Os conflitos regionais e as catástrofes naturais também afetaram sua posição.
Entretanto, a cidade não desapareceu da história. Mesmo quando sua influência política diminuiu, seu nome permaneceu presente em qualquer discussão sobre a gramática árabe, a língua, a literatura, o hadith e a jurisprudência islâmica.
Se Bagdá viria posteriormente a se tornar a capital da civilização abássida, uma parte importante dos estudiosos que contribuíram para a construção dessa civilização veio de Basra ou foi influenciada por sua escola intelectual.
No próximo episódio, deixaremos para trás a fase das primeiras cidades militares islâmicas e seguiremos para a cidade que se tornaria a capital do Califado Abássida e uma das maiores cidades do mundo na Idade Média: Bagdá.
Série: As Grandes Cidades do Islã ao Longo da História.


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