Nesta edição da série “Cidades do Islã ao longo da história”, nossa jornada nos leva ao Iraque, a uma cidade que, em seus primeiros dias, não passava de um acampamento militar dos muçulmanos, mas que, em poucos anos, se transformou em um dos mais importantes centros políticos, jurídicos e linguísticos do mundo islâmico.
Estamos falando de Kufa, uma cidade que surgiu durante o período das conquistas islâmicas e que, posteriormente, se tornou a capital do quarto califa, Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele).
Kufa também abrigou importantes escolas de conhecimento que contribuíram para a formação da jurisprudência islâmica e da língua árabe, além de ter sido o berço de grandes estudiosos que deixaram uma profunda marca no patrimônio islâmico.
Kufa: uma cidade que nasceu das conquistas islâmicas
Kufa está localizada no Iraque, ao sul de Bagdá e próxima ao rio Eufrates. Foi fundada no ano 17 da Hégira (638 d.C.) por Sa’d ibn Abi Waqqas, após a vitória dos muçulmanos na Batalha de Al-Qadisiyyah, com o objetivo de servir como centro militar e administrativo dos muçulmanos no Iraque.
Kufa não era simplesmente uma extensão de uma antiga cidade iraquiana. Ela fazia parte dos centros militares fundados pelos muçulmanos durante a época das conquistas, com a finalidade de organizar os exércitos, administrar os territórios e estabelecer comunidades muçulmanas na região.
De acampamento militar a uma grande metrópole
A sociedade de Kufa apresentava características diferentes das de muitas outras cidades islâmicas que surgiram naquele período. Nela se reuniram tribos árabes de diversas regiões, além de pessoas que haviam abraçado recentemente o Islã.
Com isso, a cidade passou a contar com uma população cada vez maior e adquiriu crescente importância econômica.
À medida que o Estado Islâmico se expandia, Kufa ganhava ainda mais relevância devido à sua localização no Iraque, uma região de grande importância econômica e agrícola para os antigos impérios.
Por essa razão, não demorou para que Kufa se transformasse em um importante centro político e militar, cuja influência ultrapassava as fronteiras iraquianas.
Entretanto, essa posição de destaque também trouxe tensões políticas e sociais, fazendo de Kufa uma das cidades mais turbulentas do mundo islâmico durante os primeiros séculos.
Kufa e Ali ibn Abi Talib: a capital do Califado
O momento mais marcante da história de Kufa ocorreu quando o califa Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) a escolheu como capital do Califado, no ano 36 da Hégira (656 d.C.).
O centro do governo foi transferido de Medina para o Iraque, e Kufa passou a ser a sede do califa. A partir dali, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) administrou os acontecimentos políticos e militares durante uma das fases mais difíceis da história islâmica.
Foi de Kufa que o exército de Ali partiu em direção a Basra, onde ocorreu a Batalha do Camelo, em 36 da Hégira (656 d.C.). Posteriormente, veio a Batalha de Siffin, em 37 da Hégira (657 d.C.), nas fronteiras da região da Síria.
Entretanto, a cidade não possuía unidade política. Diferentes correntes e grupos surgiram entre seus habitantes, que passaram a divergir em suas posições diante dos acontecimentos.
Essa diversidade foi uma das razões de sua força intelectual e científica, mas também se tornou uma fonte permanente de instabilidade política.
Ali ibn Abi Talib foi martirizado em Kufa
A história de Kufa está ligada a um dos acontecimentos mais dolorosos da história islâmica.
No dia 17 do mês de Ramadan do ano 40 da Hégira (aproximadamente 27 de janeiro de 661 d.C.), Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) foi golpeado com uma espada envenenada por Abd al-Rahman ibn Muljam, um dos integrantes dos carijitas (Khawarij), enquanto se dirigia para realizar a oração na Mesquita de Kufa. Ele faleceu aproximadamente dois dias depois.
Entretanto, a importância de Kufa não terminou com o fim de seu papel político. Pelo contrário, uma nova fase começou, fazendo com que seu nome permanecesse para sempre na história das ciências islâmicas.
Kufa: uma escola de jurisprudência islâmica e esforço interpretativo
Se a cidade ficou conhecida pela política e pelas guerras, sua maior contribuição histórica foi, sem dúvida, o conhecimento.
Desde o primeiro século da Hégira, Kufa destacou-se como um importante centro de estudos dos hadiths e da jurisprudência islâmica.
Ali surgiram grandes estudiosos da geração dos sucessores dos companheiros do Profeta, entre eles Ibrahim al-Nakha’i, Al-Sha’bi e Sa’id ibn Jubayr.
Posteriormente, a escola jurídica de Kufa alcançou o auge de sua influência com o Imam Abu Hanifa al-Nu’man, que passou a maior parte de sua vida na cidade e faleceu em Bagdá, no ano 150 da Hégira (767 d.C.).
Entre os mais destacados discípulos de Abu Hanifa estavam Abu Yusuf e Muhammad ibn al-Hasan al-Shaybani, que posteriormente contribuíram para a compilação e a divulgação da escola jurídica hanafita.
Aqui encontramos uma das maiores contradições da história de Kufa: uma cidade marcada pela instabilidade política tornou-se, ao mesmo tempo, um dos maiores centros da jurisprudência islâmica sunita.
Kufa e a língua árabe
A contribuição de Kufa não se limitou à jurisprudência islâmica e aos estudos dos hadiths. Ao lado de Basra, a cidade se tornou um dos dois principais centros responsáveis pelo surgimento e pelo desenvolvimento das ciências da língua árabe e da gramática.
Grandes estudiosos da língua surgiram em Kufa, entre eles Al-Kisa’i e Al-Farra’. A escola gramatical de Kufa tornou-se uma das principais concorrentes da escola de Basra.
A disputa intelectual entre essas duas escolas representou uma das etapas mais importantes da formação da gramática árabe.
Kufa ficou conhecida por sua atenção às evidências extraídas da poesia, às tradições linguísticas transmitidas e à diversidade dos usos da língua árabe.
Uma cidade de justiça e conhecimento
Entre as grandes personalidades de Kufa também se destacou Shurayh, o juiz, cujo nome ficou associado à administração da justiça na cidade desde a época do califa Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele).
As fontes históricas mencionam que ele exerceu a função de juiz em Kufa durante o primeiro século da Hégira, permanecendo nesse cargo por muitos anos. Seu nome tornou-se um exemplo de justiça, julgamento e conhecimento jurídico.
Assim, Kufa desenvolveu um ambiente intelectual que reunia jurisprudência islâmica, justiça, estudos dos hadiths e ciências da língua árabe. Os círculos de estudo de seus grandes estudiosos tornaram-se destinos procurados por estudantes em busca de conhecimento.
Kufa e a política: o outro lado da grande cidade
A história política de Kufa esteve longe de ser estável. Após a época dos califas corretamente guiados, a cidade tornou-se, em diferentes períodos, um importante centro de oposição política.
Kufa esteve ligada a movimentos contra os omíadas e testemunhou diversas revoltas e conflitos.
Por volta do ano 66 da Hégira (685 d.C.), surgiu na cidade Al-Mukhtar ibn Abi Ubayd al-Thaqafi. Posteriormente, Kufa foi palco de violentos confrontos, que terminaram com a derrota de seu movimento no ano 67 da Hégira (687 d.C.).
Durante o período omíada, a cidade foi submetida a uma política rigorosa, especialmente durante o governo de Al-Hajjaj ibn Yusuf, que procurou conter sua instabilidade e seus frequentes conflitos políticos.
Mais tarde, Kufa perdeu parte de sua importância administrativa quando a cidade de Wasit foi fundada, por volta do ano 83 da Hégira (702 d.C.), tornando-se um novo centro administrativo do Iraque.
De Kufa a Bagdá: o fim da capital e a permanência de sua tradição intelectual
Quando o Califado Abássida chegou ao poder, Kufa foi um dos centros da revolta contra os omíadas. Foi também nessa cidade que o estabelecimento do Estado Abássida foi proclamado, no ano 132 da Hégira (749 d.C.).
Entretanto, a ascensão de Bagdá, após sua fundação em 145 da Hégira (762 d.C.), mudou o equilíbrio de poder.
Bagdá tornou-se a capital do Estado Abássida, e as principais funções políticas, administrativas e intelectuais foram gradualmente transferidas para lá, enquanto Kufa perdia sua posição como capital.
Apesar disso, a cidade não desapareceu do cenário islâmico. Ela continuou sendo um importante centro de conhecimento, e seu nome permaneceu presente na história da jurisprudência islâmica, da língua árabe e da transmissão dos ensinamentos religiosos.
Legenda da imagem: A Mesquita de Kufa, construída pelo nobre companheiro do Profeta, Sa’d ibn Abi Waqqas, no ano 19 da Hégira (639 d.C.), por ordem do califa Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele).
Kufa nos dias atuais: a memória de uma cidade construída ao longo dos séculos
A importância política e urbana de Kufa diminuiu ao longo dos séculos. A cidade enfrentou períodos de instabilidade e ataques que enfraqueceram sua posição, especialmente durante o quarto século da Hégira. Com o passar do tempo, outras cidades da região ganharam destaque em seu lugar.
Entretanto, seu legado intelectual nunca desapareceu.
Sempre que os muçulmanos mencionam Abu Hanifa, a jurisprudência iraquiana, a escola linguística de Kufa, Ali ibn Abi Talib e a primeira geração de estudiosos do Iraque, o nome de Kufa volta a ocupar um lugar de destaque.
Foi uma cidade que começou como um acampamento militar dos conquistadores muçulmanos, transformou-se em capital do Califado e, posteriormente, tornou-se um dos maiores centros de conhecimento do mundo islâmico.
Embora tenha perdido sua influência política ao longo dos séculos, permaneceu viva nas obras de jurisprudência, nos estudos dos hadiths e nos livros da língua árabe.
E assim, nossa próxima parada será Basra, a cidade que rivalizou com Kufa no campo do conhecimento e da língua árabe, e que deu origem a grandes estudiosos responsáveis por construir uma parte significativa das ciências da língua árabe, dos estudos dos hadiths e do pensamento na civilização islâmica.
Série: Cidades do Islã ao longo da história.


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